Empresas de políticos faturaram R$ 1,1 milhão com verba pública na eleição

18/02/2019 - 16h18

Levantamento aponta que 11 candidatos aplicaram recursos em suas próprias empresas

Candidato Ciro Gomes, do PDT Candidato Ciro Gomes, do PDT

Os candidatos que disputaram as eleições de 2018 gastaram pelo menos R$ 1,1 milhão dos recursos públicos dos fundos partidário e eleitoral em empresas próprias ou de outros políticos. Levantamento do jornal Folha de S. Paulo aponta que 11 candidatos aplicaram recursos em suas próprias empresas e outros 121 gastaram com firmas de outros políticos que disputaram a eleição do ano passado.

Os gastos vão desde contratação de gráficas, produtoras de audiovisual e compra de combustíveis a gastos menores, como compra de material de escritório, água mineral e até uma borracha para lápis que custou nove centavos. O presidenciável derrotado Ciro Gomes (PDT) foi o candidato que mais gastou verbas eleitorais com uma empresa própria. Sua campanha repassou R$ 80 mil para o escritório Xerez Saldanha Vasconcelos e Ciro Gomes Advogados Associados. E as despesas não se resumiram à campanha: o escritório de Ciro recebeu R$ 60 mil do PDT em 2017, conforme revelado pela Folha no ano passado.

O pedetista informou que se afastou da empresa durante a campanha eleitoral e que jamais recebeu recursos decorrentes da prestação de serviço de advocacia à sua campanha. Também afirmou que os serviços prestados são públicos e podem ser consultados no Tribunal Superior Eleitoral.

Entre os candidatos que foram eleitos, o deputado federal Lúcio Mosquini (MDB-RO) é campeão em gastos em sua própria empresa —foram R$ 23,5 mil repassados para um posto de combustíveis do qual ele é proprietário. Ele alega que não há irregularidade na contratação, classifica os gastos como pequenos diante do R$ 1,8 milhão que gastou na campanha e diz que optou pelo posto para comprar mais barato: "Eu fiz desconto para mim".

O mesmo fez o deputado estadual Zé Santana (MDB-PI), que aplicou R$ 3.800 na aquisição de gasolina e diesel em seu próprio posto combustível, que fica em Uruçuí [a 453 km de Teresina]. "O posto fica na região onde tenho base eleitoral, é onde eu sempre abasteci. Não teria sentido eu comprar na mão de outro [posto]", afirma.

Outros oito candidatos que não tiveram êxito na eleição repassaram recursos para as próprias empresas. Eles pertencem a partidos como PC do B, PP, DEM, PSL e PDT e gastaram entre R$ 450 e R$ 16 mil.

Entre os candidatos que contrataram empresas de políticos aliados, o que mais gastou foi o deputado federal José Medeiros (Pode-MT). Ele repassou R$ 200 mil para uma gráfica que pertence a Gina Defanti (PSL), que também disputou o cargo de deputada federal. Medeiros não quis se pronunciar sobre o caso.

O presidenciável José Maria Eymael (DC) gastou R$ 43 mil na empresa de Cynthia Akao (DC-SP), candidata a deputada estadual em 2018. A firma é desenvolvedora de aplicativos para mobile e redes sociais. "É uma jovem que já prestava serviço para a gente e quis ingressar na política. Teve até uma votação razoável", justificou Eymael. Cynthia Akao teve menos de 300 votos.

No geral, a gráfica pertencente ao ex-deputado Antônio Mentor (PT) foi a empresa de político que mais faturou nesta campanha. A firma foi contratada 132 vezes por 17 candidatos e recebeu ao todo R$ 243 mil.

Entre os contratantes, também há políticos de partidos adversários, caso dos candidatos a deputado por São Paulo Miguel Lombardi (PR) e Edmir Chedid (DEM).

O levantamento feito pela Folha inclui apenas os políticos que usaram verbas públicas dos fundos partidário e eleitoral. Portanto, não contempla casos de políticos que aplicaram em empresas próprias ou de aliados recursos da campanha que vieram de doações feitas por pessoas físicas.

Dois governadores enquadram-se nesses casos. O governador de Roraima, Antônio Denarium (PSL), gastou R$ 84,4 mil em uma firma pertencente a Doan Rabelo (PSL-RR), candidato a deputado federal. Já o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), alugou veículos da empresa de Júlio Ventura Neto, segundo suplente para o Senado na chapa encabeçada por Cid Gomes (PDT), seu aliado. Foram gastos R$ 51,5 mil, mas todo o dinheiro veio de doações.

Outro caso semelhante foi o do senador Angelo Coronel (PSD-BA), que pagou R$ 108 mil para o aluguel de uma aeronave de uma empresa que pertence à sua família e que tem ele próprio como presidente. Também contrataram essa mesma empresa o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o governador da Bahia Rui Costa (PT).

Ainda houve situações de repasses para empresas de parentes, caso do deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE), que gastou R$ 250 mil na empresa de seu filho Cristiano Bivar. O caso foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira (15).

 

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